JORNAL A NOTÍCIA
Caderno ANCAPITAL

Florianópolis - Domingo, 28 de Julho de 2002 - Santa Catarina - Brasil

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Memória

Um nome escrito a sangue

Há 18 anos era lançado o Comitê Pró-Mudança do Nome de Florianópolis, grupo que reunia cidadãos descontes com denominação da cidade em homenagem ao marechal Floriano Peixoto

JEFERSON LIMA

Não é muito provável chegar a um bom termo numa discussão em torno da origem do nome Florianópolis. A denominação remete a Floriano Peixoto, marechal-presidente do Brasil em cujo governo duas centenas de catarinenses foram enforcados e fuzilados sumariamente na Ilha de Anhatomirim, durante a revolução federalista, entre 1893 e 1894. Até a década de 1980, o episódio era desconhecido da maioria da população, que passou a discutir o assunto com o Comitê Pró-Mudança do Nome da Capital, criado há exatos 18 anos na Câmara Municipal.

O objetivo era realizar um plebiscito para saber a opinião dos moradores. A consulta não aconteceu, mas a discussão do tema deixou a população mais politizada ou pelo menos mais esclarecida sobre a origem do nome da cidade. O movimento não pretendia exatamente voltar ao nome Nossa Senhora do Desterro, como a cidade era conhecida até 1894 e que remete a uma idéia de degredo. A intenção era chegar a uma denominação que não homenageasse o "ditador", que era como o historiador Oswaldo Rodrigues Cabral tratava Floriano.

Os mortos de Anhatomirim eram figuras ilustres da cidade. O engenheiro Hercílio Luz, então senador da República, não conseguiu impedir o fuzilamento de seu próprio irmão, Elesbão Pinto da Luz. A mudança do nome da cidade teria sido negociada pelo próprio Hercílio Luz, que cumpriria seu acordo quando assumiu o governo do Estado. A Assembléia votou sob pressão a Lei 111, de 1º de outubro de 1894. Depois de 200 anos como Nossa Senhora do Desterro, a cidade passou a denominação de Florianópolis, ou seja, cidade de Floriano.

"Não é possível gostar desse perfeito exemplo de artificialismo que é o nome da Capital dos catarinenses. Não adianta forçar a semântica e dizer que há flores em Florianópolis, quando o que sobressai é um punho de ferro que nos remete à tragédia", declarava em 1986, o escritor Flávio José Cardozo em matéria publicada pelo jornal O Estado. Ontem à tarde, ao relembrar o assunto, Flávio disse que mantém o desejo de ver a cidade com outro nome, mas reconhece que é difícil mudar o que já está consagrado e que envolve opiniões bastante divergentes em torno da história.

HOMENAGEM

Para o historiador Walter Piazza há outros assuntos mais importantes para se discutir do que o nome da cidade. "Este tema é irrelevante hoje, quando o povo está passando fome", diz ele. "Na época do império já havia uma insatisfação com o nome Desterro e surgiu a sugestão de Ondina. Quer dizer, a emenda saiu pior do que o soneto", avalia o professor. No Brasil há uma velha quizilha de que mudando vai melhorar.

Para Piazza não se pode atribuir a Floriano Peixoto a ordem para os fuzilamentos e enforcamentos. "Ninguém tem prova disso. Floriano ficou visado porque enviou o coronel Moreira César para Florianópolis. Moreira tinha problemas fisiológicos causados pela epilepsia e fala-se que ele tinha roupantes em função disso. Não sei até que ponto é possível falar sobre este assunto numa conversa rápida. Isso é um assunto para ser aprofundado. Pouca gente sabe quem foi Moreira César. Existe uma opinião na Ilha de Santa Catarina que o coronel Luiz Caldeira de Andrada seria o primeiro nome na lista do governo para assumir o posto de general e o Moreira, o segundo. Por esse motivo, Caldeira teria sido fuzilado em Anhatomirim a mando de Moreira".

O historiador discorda também que o nome Florianópolis foi uma imposição para acabar com a matança em Anhatomirim. "Na Assembléia Provincial da época, a proposta de mudança de nome foi realizada por Genuíno Firmino Vidal Capistrano, doutor em direito da Faculdade de São Paulo e ligado ao grupo de Hercílio Luz. A partir desta proposição é que foi mudado o nome." E ao contrário do que se fala em Florianópolis, de que Floriano nunca teria pisado na cidade, Piazza diz que o militar teria passado por aqui entre 1865 e 1866, a caminho da Guerra do Paraguai. O coronel Moreira César foi morto poucos anos depois da chacina de Florianópolis na Guerra de Canudos, no sertão nordestino.

REVOLTA

A manifestação pública mais contundente contra o Floriano Peixoto em Florianópolis aconteceu em novembro de 1979, durante a visita do general-presidente João Batista Figueiredo, quando houve uma manifestação política veemente contra o governo federal. Por conta da carestia que passava o País naquele momento, uma placa em homenagem ao marechal, colocada na praça 15 de Novembro pelo governo do Estado e patrocinada pelo presidente da república, foi arrancada pela população, que começava lentamente a descobrir a sua própria história. Floriano também foi condenado pelo seu crime em um julgamento público realizado na metade da década passada na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Para o cineasta Eduardo Paredes, autor dos curtas-metragens "Desterro" e "Novembrada", que abordam o assunto, "cada vez que é pronunciado o nome da cidade, mesmo inconscientemente, é feita uma homenagem ao déspota, ao ditador, algoz dos catarinenses. Quanto à mudança do nome, Paredes acredita que deveria haver um plebiscito para tratar do assunto.

DESTERRO

Embora a mudança de nome tenha ocorrido em 1894, até 1925 as empresas recebiam encomendas endereçadas a Nossa Senhora do Desterro. Ainda hoje o nome é uma forte lembrança na cidade, como é possível observar em denominações como Clube de Cinema Nossa Senhora do Desterro, Filarmônica Desterrense, Desterro Jóias, Desterro Loterias, Desterro Veículos, Desterro Equipamentos para Escritórios, Academia Desterrense de Letras, entre outras.

Na época da campanha, vários nomes foram sugeridos para substituir o atual. Alguns de gosto duvidoso, como "Açoreanópolis", em função do povo colonizador da Ilha. Antes mesmo da homenagem forçada a Floriano, já havia em Desterro o desejo de mudar o nome da cidade para outro que melhor refletisse a beleza natural da Ilha.

Antes da proclamação da República foram cogitados os de "Baía Dupla", "Boa Vista" e "Ponta Alegre", todos inspirados na geografia da região. Outro nome surgido na época era "Ondina", que na mitologia escandinava significa gênio da água, mas não foi aprovado pelo Visconde de Taunay, presidente da província de Santa Catarina. Taunay achava a denominação ridícula e pretensiosa e preferia "Redenção", que também não foi aprovado. "Desterro" acabou permanecendo até o massacre de Anhatomirim.

Outros nomes surgiram ou ganharam força com o decorrer do tempo, principalmente durante a campanha. "Floripa" é um deles e é consagrado pela juventude. Algumas campanhas publicitárias assim referem-se à cidade. Já "Ilha de Santa Catarina", um dos primeiros nomes, é o mais consagrado e popular em outros Estados, ou simplesmente "Ilha". "Flópis" é também um nome sugerido por algumas pessoas. Há ainda outros nomes provenientes do comitê que organizou a campanha. Alguns deles são "Atlântida", "Flor do Atlântico", "Marianópolis" e "Flor de Lis".

Outra denominação sugerida pelos simpatizantes do comitê em defesa da mudança da cidade era o retorno a "Meiembipe", nome de origem indígena e antiga denominação da capital que na língua dos carijós significa lugar acima do rio. Ou ainda "Jurerê-Mirim", também de origem indígena que significa boca pequena. O Movimento Ecológico Livre, o Mel, bastante ativo na década de 80, sugeria o nome de "Flor" para a Capital.

Depois de criado o comitê, descobriu-se que a cidade não poderia voltar ao nome "Desterro" ou "Nossa Senhora do Desterro" - nome em homenagem à Nossa Senhora do Desterro, dada por Francisco Dias Velho, fundador da cidade - por conta da lei complementar de número 46, de 21 de agosto de 1984, que regulamenta os topônimos em cidades e vilas. Na Paraíba já existem municípios com os nomes "Desterro" e "Desterro da Malta" e em Minas Gerais, "Desterro de Entre-Rios" e "Desterro do Melo".

CHACINA

A chacina de Anhatomirim foi o desfecho da Revolução Federalista. Desde a proclamação da república, em 1889, até 1894, o país viveu um período turbulento. Depois que os militares instalaram o novo regime e baniram a família real, o primeiro presidente republicano, o marechal Deodoro da Fonseca, foi pressionado a renunciar ao cargo. Quem assumiu então foi o vice-presidente, Floriano Peixoto, seu genro.

Floriano deveria convocar novas eleições, mas não o fez. Houve oposição militar e civil em relação a atitude do "marechal de ferro". A uns e outros, Floriano puniu. Reformou os generais e desterrou os civis e outros militares para as fronteiras da amazônia. Floriano enfrentou várias revoltas, como a Revolução Federalista, no Rio Grande do Sul, e a Revolta da Armada, no Rio de Janeiro. Ao derrotar as tropas federalistas e as da Armada, os governistas cometeram atrocidades, como fuzilamentos sumários, especialmente em Santa Catarina, segundo atestam os historiadores José Jobson de Arruda e Nelson Piletti, em "Toda a História", da editora Ática.

Os descendentes dos mortos em Anhatomirim ainda guardam o mesmo ressentimento e têm aversão ao atual nome da Capital. Em uma das cartas recebidas pelo vereador Rogério Queiroz na época da implantação do comitê, José Finardi, de Blumenau, escreve que seu pai e seu avô "jamais proferiram o nome Florianópolis. Preferiam usar Desterro e guardavam um ódio justificável ao mandante dos fuzilamentos de diversos amigos e companheiros seus".

O mesmo acontecia com Gilete Caldeira Andrada. Até morrer, em 1990, aos 99 anos, ele se recusava a chamar a cidade pelo nome que tem hoje. Seu pai, o coronel Luiz Gomes Caldeira de Andrada foi fuzilado em Anhatomirim quando ela tinha três anos de idade.

Um dos fuzilamentos mais cruéis foi o do marechal-de-campo Manoel de Almeida Gama Lobo D'Eça, o Barão de Batovi. Quando o pelotão se preparava para a execução, o filho Alfredo Gama d'Eça pediu permissão para despedir-se. Como o abraço foi longo, o que impacientou o comandante do fuzilamento, pai e filho morreram abraçados.

Segundo o cirurgião plástico Rodrigo D'Eça Neves, descendente do Barão, seu trisavô "morreu por fidelidade ao império, foi ferido em guerra, era mais herói" do que o Duque de Caxias e já estava bastante velho quando foi morto em Anhatomirim", conta. Rodrigo diz que não sente mágoa, porque acredita que não se pode viver com um sentimento ruim e acredita que a saudação a Floriano foi a homenagem mais injusta que poderia ser prestada pela cidade a alguém.

LISTA

Apesar da informação de que foram mortos 185 catarinenses em Anhatomirim, o historiador Dante Martorano, já falecido e um dos criadores do Comitê Pro-Mudança do Nome da Capital, dizia que o numéro de vítimas chegava a 300. Consta que os militares eram fuzilados e os civis enforcados. Grande parte dos mortos eram oficiais do Exército, mas havia desembargadores, juízes e engenheiros, três deles franceses.


Entre os fuzilados estão oficiais do Exército como o marechal-de-campo Manoel de Almeida Gama Logo D'Eça; o coronel Luiz Gomes Caldeira de Andrada; o tenente-coronel Sérgio Tertuliano Castelo Branco; o major-médico Alfredo Paulo Freitas; os capitães Romualdo de Carvalho Barros, Tobias Becker, Júlio Cezar da Silva Lima, Luiz Inácio Domingues e Antônio Manoel da Silva Júnior; o tenente Brasiliano Alves do Nascimento; os alferes João Machado Lemos, Olímpio Saturnino Alves, Emílio Teles de Azevedo e José Gomes da Silva Fraga; os cadetes Manoel Teles, Higino Schutel, José Becker, Aquiles Constantino, Domingues Vieira de Souza e Raul de Souza; e o capitão reformado João Evangelista Leal.

Entre os oficiais da Marinha estavam o capitão-do-mar e guerra Frederico Guilherme Lorena; os primeiros-tenentes Álvaro Augusto de Carvalho, Artur Augusto de Carvalho, Delfino Lorena, Carlos Augusto de Melo Camisão; o tenente-médico José Amado Coutinho Barata; e os aspirantes Pedro de Lorena e Álvaro Mota. Da Polícia foram executados o capitão José Bittencourt e o tenente Manoel Constantino. Além desses morreram o coronel Israel de Sá, Fernando Goulart e seu filho e o major Elesbão Pinto da Luz.

Os civis mortos são Alfredo da Gama D'Eça, o juiz de Direito Joaquim Lopes de Oliveira, o procurador-seccional Carlos Guimarães Passos, o desembargador Francisco Vieira Caldas, o negociante Caetano Nicolau de Moura, o escrivão Miguel Cercal, o fiscal da Câmara Miguel Cascaes e Manoel Duarte. Estrangeiros: Edmundo Buette, Charles Müller e Ettiène (sem sobrenome identificado), todos engenheiros franceses.

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